30 de julho de 2015

Wicca Tradicional Britânica

O termo Wicca Tradicional Britânica (BTW) aplica-se aos seguidores do revivalismo da Antiga Religião feita por Gerald Gardner e Doreen Valiente na década de 50. Designa-se dessa forma porque Gardner revitalizou práticas de feitiçaria hereditária encontradas na região de New Forest, no sul da Inglaterra. Portanto, é uma Tradição de Feiticeiros(as) britânicos, daí a designação Wicca Tradicional Britânica.

Os princípios básicos estão contidos nos conhecimentos passados oralmente e também através de Livros das Sombras. A BTW é uma "Tradição" iniciática e misteriosa, o que quer dizer que todos os conhecimentos (litúrgicos e religiosos) são absolutamente restritos a iniciados da Tradição e protegido por vários votos que são jurados antes que a participação ativa nos mistérios seja concedida. A BTW não procura convertidos ativamente, deixando que aqueles que sentem ser este seu caminho o procurem e cheguem a ele espontaneamente. 

Existe uma estrutura de base na BTW a qual se materializa em graus, correspondendo ao nível de treino dos iniciados. Estes graus podem-se encontrar em outras ordens similares, como a Maçonaria. Na BTW existem três graus, sendo o terceiro o mais alto. Os seus participantes organizam-se em Covens autônomos ou semi-autônomos. Os Covens são liderados por uma Sacerdotisa de grau suficiente.

Por causa de algumas diferenças dogmáticas e filosóficas, o corpo da BTW divide-se em vários grupos, os quais são designados Tradições. Cada Tradição tem as suas próprias práticas codificadas nos conhecimentos e material específico a cada uma delas, em oposição aos conhecimentos e filosofias que são comuns a todas. As Tradições mais comuns são a Gardneriana e Alexandrina. Na América, a Central Valley Wicca. Outras Tradições reclamam pertencer a BTW, mas esa aceitação varia de Tradição para Tradição. Na maior parte das Tradições, um Coven só pode ser liderado por alguém que possua grau 3, embora outras Tradições se pense de forma diferente em relação a este assunto. Por exemplo, na Gardneriana, um Coven só pode ser liderado por uma Sumo Sacerdotisa de nível 3, sendo o papel do Sumo Sacerdote apenas cerimonial. Na Alexandrina um Coven pode ser liderado tanto por uma Suma Sacerdotisa, como por um Sumo Sacerdote, embora a Sumo Sacerdotisa seja vista como prima inter pares em ritos religiosos. O Sumo Sacerdote tem mais deveres e poderes nesta Tradição.

Por vezes, as circunstâncias poderão ditar a necessidade de criar um Coven que não é liderado por um Sacerdote ou Sacerdotisa de nível 3. Dentro dessas circunstâncias especiais podem-se encontrar a distância, o tamanho do Coven ou o descontentamento quanto à liderança do Coven mãe (Coven de Origem). Neste caso, um iniciado de nível 2 poderá liderar um Coven descendente do Coven nãe em um processo chamado "hiving off", para fundar o que se chama "Maiden Coven" (Coven novo que se considera semi autônomo). O Maiden Coven opera ainda sob autoridade da Sumo Sacerdotisa de nível 3 do Coven mãe, até a altura que o iniciado líder do Maiden alcance o nível 3.

Uma vez que o processo de treinamento tenha terminado, um iniciado de nível 3 da BTW poderá ser considerado autônomo ou semi autônomo, dependendo da Tradição. O Sacerdote ou Sacerdotisa que elevou o iniciado de nível 2 a 3 é considerado seus anciãos. A função dos anciãos é o seu grau de controle ou poder perante o iniciado de nível 3 depende da linhagem e Tradição.

A BTW pratica cerimônias formais de iniciação e elevação, e a auto iniciação não é reconhecida. A iniciação só é concedida quando o mentor estiver satisfeito com o desempenho de seu aluno.

29 de julho de 2015

Alex Sanders e a Tradição Alexandrina

Os Alexandrinos definem Wicca como uma religião de mistérios, pagã, iniciática, voltada para a natureza e de segredos, com suas raízes nas Ilhas Britânicas. Para diferenciar das demais Tradições que não tem vínculo com Gerald Gardner ou Alex Sanders, determinamos BTW (British Traditional Wicca) ou apenas TW (Traditional Wicca).

O nome Alexandrina é, geralmente, visto pelos iniciados na Tradição como uma referência ao seu fundador Alex Sanders, assim como uma referência à Grande Biblioteca de Alexandria, que era um centro de conhecimento e ocultismo no mundo antigo.

Alex Sanders foi inciado a Wicca no início da década de 60, na Tradição Gardneriana. Mais tarde, ficou conhecido por sua sabedoria em Magia Cerimonial, assim como por suas aparições na mídia e seu título Rei dos Bruxos, que foi concedido à Sanders por líderes de vários Covens no fim da mesmo década. De acordo com sua ex mulher, Maxine Sanders, ele foi membro de, pelo menos, dois Covens antes de se casar com ela e fundar o "London Coven", de onde os membros da Tradição Alexandrina descendem.

Alex era um homem extravagante e, entre outras coisas, um showman nato. Ele brincava com a imprensa em todas as oportunidades, para desespero dos conservadores anciões da Antiga Religião. Alex também era conhecido como curandeiro, vidente e poderoso bruxo. Sanders foi, em grande parte, responsável em tornar o público ciente sobre a Antiga Religião.

Devido ao comportamento de Sanders com a mídia e conflitos com duas Sacerdotisas da época, um racha aconteceu dentro da comunidade Wicca. Essa rachadura foi início do que, mais tarde, viria a ser conhecida como Tradição Alexandrina. O termo "Alexandrina" foi dito por Maxine Sanders e reproduzido por Stewart Farrar, enquanto escrevia "What Witches Do", em 1971. No entanto, ao ser entrevistado por Stewart, Sanders disse:
"Os bruxos que não querem publicidade tendem a chamar os meus iniciados de alexandrinos."
 Ou seja, o termo foi criado por Alex ou foi resultante de cunho pejorativo, do mesmo modo que o termo gardneriano surgiu. Os primeiros iniciados dos Sanders se referem a si mesmos como wiccas ou bruxos. Os Sanders tiveram o cuidado de documentar suas iniciações metodicamente, tornando assim, o primeiro passo para que a Tradição se tornasse a mais precisa e correta com seus membros.

Naturalmente existem muitas dúvidas sobre as Tradições. Ao contrário do que muitos pensam, nem todos os alexandrinos trabalham com Magia Cerimonial, tais como Cabala e Magia Enochiana. Alex Sanders estava constantemente desenvolvendo suas práticas mágicas e transmitindo seus novos conhecimentos aos seus iniciados. O resultado é que linhagens descendentes de Sanders possuem diferenças, apesar de manterem o núcleo tradicional da Wicca. Alguns alexandrinos são fortemente voltados para a Magia Cerimonial, enquanto outros são mais voltados para o folclore. Treinamento sempre tem sido o ponto forte dessa Tradição, com cada nova geração adicionando conhecimento ao que foi transmitido pela antiga geração. Essa diversidade torna a Tradição dinâmica, mas com pés firmes na Wicca.

Alex Sanders faleceu próximo à Samhain, 30 de Abril de 1988 e, com sua morte, um conselho de anciãos da Tradição Alexandrina foi convocado.

Tradicionalmente, os alexandrinos trabalham e adoram os Antigos Deuses da Europa, com foco primário na Senhora da Lua e seu Consorte, o Senhor de Chifres. No entanto, seus Deuses não são ciumentos e os iniciados podem louvar outras deidades em suas práticas particulares ou dentro de seu Coven.

Buscam uma conexão com as divindades, com seus ancestrais e com os ciclos da natureza. Acreditam no poder da magia, utilizando tanto técnicas tradicionais como experimentos em prol de obter seus objetivos. 

A Tradição Alexandrina é organizada em Covens. Alguns praticam vestidos de céu (nus), enquanto outros preferem trabalhar usando túnicas. No entanto, determinado rituais exigem a nudez ritual por parte de todos os Covens alexandrinos reconhecidos. Para tornar-se um iniciado alexandrino, a pessoa precisa ser iniciada por um Alto Sacerdote (ou Alta Sacerdotisa) alexandrino, respeitando a regra entre gêneros (homem para mulher e mulher para homem). Os rituais iniciatórios devem ser usados sem subtração de nenhuma parte, tal como transmitido através de cada linhagem desde o Coven alexandrino original. Não é possível se auto iniciar na Wicca Alexandrina.

A Tradição consiste em três níveis; conhecidos como graus. O primeiro grau torna o iniciado em Sacerdote ou Sacerdotisa, o segundo grau torna o elevado em Alto Sacerdote/Sacerdotisa, e o terceiro grau é conferido para os que saem para comandar seus próprios Covens. O tempo entre os graus pode variar entre as linhagens alexandrinas e depende do foco em que cada Coven confere seu treinamento. Na Tradição Alexandrina a pessoa passa pelos graus dependendo de seu crescimento pessoal e interno, investido do critério temporal da Wicca Gardneriana (ex. 1 ano e 1 dia).

Uma pessoa com o segundo grau pode iniciar um Coven e iniciar outros até o segundo grau, com permissão de seus anciãos. Os Covens comandados por Sacerdotes de segundo grau ficam sob responsabilidade dos anciãos do "Coven mãe" até que os Sacerdotes estejam preparados para receber a elevação ao terceiro grau. A autonomia conferida aos Sacerdotes de segundo grau varia dependendo da linha que o Coven descende. Em contrapartida, os Sacerdotes do terceiro grau são completamente autônomos, respondendo pelos seus atos perante os Deuses e perante a Tradição como um todo.

Diferente da Wicca Gardneriana, pode existir o grau Dedicado, que permite que a pessoa participe de alguns rituais antes de se firmar compromisso eterno com os Deuses. Este procedimento expõe o candidato à Tradição, permitindo aos Sacerdotes uma melhor análise do potencial e vocação do mesmo.

A Tradição é matrifocal e a Alta Sacerdotisa é considerada "a primeira entre iguais" e detém a palavra final em todos os assuntos do Coven. Ou seja, é por costume que a palavra da Sacerdotisa seja a lei do Coven. No entanto, a autoridade dela se limita aos assuntos referentes à Arte. Normalmente a Alta Sacerdotisa tem o suporte do Alto Sacerdote.

Logo após a iniciação, se começa a transmissão do Livro das Sombras e do conhecimento oral, deixando clara a responsabilidade sobre estes ensinamentos. Ao contrário do que se imagina, O Livro das Sombras Alexandrino não pode ser comprado em uma livraria, nem obtido pela internet.

A Wicca Aexandrina celebra os 8 Sabbats da Roda do Ano e também se reúnem às Luas Cheias para celebrar os Esbats em homenagem à Deusa. Nem o Rei do Carvalho e nem o Rei do Azevinho fazem parte das celebrações oficiais. 

Iniciação e elevação são um privilégio e não um direito. Para ser iniciado na Wicca, a pessoa precisa provar ser adequada para tal. Esse aspecto será analisado pelos anciãos do Coven, que observarão: sinceridade, caráter, maturidade, espiritualidade, nível de compreensão, ética e personalidade. Outro ponto importante é a química entre o postulante e os demais membros do grupo.

Na Wicca nunca se deve pedir dinheiro em troca de iniciação e/ou ensino da nossa religião. Na Tradição Alexandrina alguns Covens dividem os gastos básicos e segue o lema "Se não prejudicar ninguém, faça o que quiser." Atos totalmente puros de prejuízo, visto que é praticamente impossível não causar impacto em algo ou alguém. Somos totalmente responsáveis pelas nossas escolhas na vida.

É uma Tradição secreta, dese modo, muitos detalhes de como e porque fazem determinada prática é segredo. Eles tem a Tradição e seu conhecimento como sagrados e privados, e acreditam que a prática por pessoas que não foram propriamente treinadas é algo perigoso que pode causar sérios resultados. Eles mantem segredo não por elitismo, mas por respeito, cautela e consideração com os mesmos e os demais.

Robert Cochrane e a Tradição 1734

Robert Cochrane (nome fictício de Roy Bowers), foi uma pessoa carismática e controvertida, que teve sua contribuição em prol da Bruxaria Moderna ofuscada por Gerald Gardner. Cochrane foi um bruxo inglês que fundou o Coven "Clan of Tubal Cain", praticamente na mesma época que Gardner começou seu próprio Coven na década de 50. Assim, como o Coven de Gardner originou as bases da Tradição Gardneriana, o Coven Tubal Cain foi a base para a tradição 1734.

Cochrane nasceu em uma família metodista em 26 de janeiro de 1931. Eles moravam em Londres, Inglaterra, porém sua infância e adolescência são, de certo modo, obscuras e baseadas apenas no que Cochrane contava. Ele se dizia ser um bruxo hereditário e falara sobre um bisavô que praticava bruxaria em Warwickshire e também mencionava sobre uma tia Lucy que, segundo ele, possuia uma grande coleção de artigos de bruxas.

Cochrane também reivindicava ter antepassados que foram executados por bruxaria, sem esuqecer suas menções sobre um tio (de parte materna) que teria sido seu professor. Mais tarde, ele se contradisse ao afirmar que aprendeu a Arte com sua mãe (que, por sua vez, teria aprendido com a avó). No entanto, nenhuma das afirmações foram provadas. O que se sabe como certo é que Cochrane leu muitos livros e buscou recriar o que ele acreditava ser a Antiga Religião.

Seu Coven empre trabalhava ao ar livre, vestidos em robe preto, dançando e cantando em torno de uma fogueira. Eles veneravam o Deus de Chifres e a Deusa em seu aspecto triplo, que atribuíam como: vida, fatalidade e destino.

Cochrane era um talentoso poeta e filósofo que adorava escrever em formas místicas e enigmáticas. Seus ensinamentos eram uma amálgama de misticismo Celta com Bruxaria Popular.e os transmitia no mesmo modo que os Druidas faziam; usando poesias, canções e enigmas. Ele e sua mulher, Jane, conseguiam combinar Bruxaria (seus instrumentos consistiam de um caldeirão, faca, corda, cálice e pedra) e metodologia Druida de treinamento e prática. Ele inspirava pesquisa e evolução em vez da pura adoção de dogmas.

No início dos anos 60, Cochrane começou a se corresponder com um bruxo americano chamado Joe Wilson, que acabou fundando a Tradição 1734 nas Américas. As informações que Cochrane colocou em suas cartas para Wilson, junto com artigos que escreveu para vários periódicos, foram as bases dessa Tradição nos dias de hoje.

Com o passar do tempo, Wilson e outros americanos trabalharam juntos para resolver os enigmas de Cochrane e preencher as lacunas de seus ensinamentos. Wilson entregou cópias das cartas para alguns amigos, que, em contrapartida, fizeram pesquisas e encontraram suas próprias respostas. O resultado disso é que os Covens estruturados se diferenciam um do outro, e esse foi o início da Tradição 1734. Hoje em dia, cada Coven é autônomo e não existe autoridade central; além disso, a Tradição não possui um Livro das Sombras oficial.

O número 1734 era um dos enigmas de Cochrane. A descrição pode ser encontrada em uma carta para Joe Wilson, datada de 6 de janeiro de 1966.

Em 1964, Doreen Valiente se juntou ao grupo e foi inciado no Clan of Tubal Cain. Contudo, Doreen logo percebeu que Cochrane era mais ficção do que fato. Cochrane se tornava cada vez mais ditador e um romance com uma mulher do Coven acabou fazendo com que Jane o deixasse, colocando fim ao casamento. Tudo isso, aliado a sua implicância com os gardnerianos e sua obsessão por poções mágicas (em determinado momento, Cochrane passou a ser fascinado por drogas psicodélicas, derivadas de ervas), fizeram com que Doreen deixasse o grupo.

Cochrane morreu em 1966, na noite anterior do Solstício de Verão, no que aparentou ser um ritual de suicídio. Ele ingeriu folhas de belladonna, trazendo muitas especulações sobre sua morte. Alguns acreditam que foi por acidente, outros que foi suicídio, outros, especialmente membros de sua Tradição, acham que ele fez um sacrifício voluntário.

Infelizmente, logo após sua morte, muitos de seus papéis pessoais foram destruídos pela sua família. Em contrapartida, em 2001 sua viúva transmitiu os direitos do autor referente às cartas e artigos para Evan John Jones (antigo membro do Tubal Cain, que o liderou depois da morte de Cochrane); que assegurou que o material fosse reimpresso para a posterioridade.

27 de julho de 2015

Fundamentos da Wicca

A Wicca segue os mesmos preceitos dos antigos celtas. Sua magia é a magia do cotidiano, sua fé é investigativa e irriquieta e fundamenta-se em três fatores bem definidos: o animismo (ou a ideia de que tudo no universo está impregnado na vida), o panteísmo (segundo qual a divindade é parte essencial da natureza) e o politeísmo (a convicção de que a divindade é, ao mesmo tempo, múltipla e diversificada). 

Seus dogmas e tradições giram em torno da natureza, assim como seus Deuses, reflexos divinos do mundo visível. Sua cultura é a cultura da simplicidade; seu caminho, o da busca e do conhecimento; seu objetivo, a felicidade. É uma religião de vida. Cultua o presente e tenta fazer dele um momento único.

"Seja feliz", dizem as bruxas, mas nunca em prejuízo de nada ou de ninguém. Seja feliz através de seus próprios méritos e utilize nessa busca todos os ingredientes e sinais que a mãe natureza pode oferecer. Wicca é a bruxaria renovada, é a capacidade de transformar a realidade através da magia, Busca a integração do ser humano com a natureza e com as divindades. Wicca é o resgate da magia que séculos atrás moveu o mundo e transformou desejos em realidade.

O Renascimento da Bruxaria

Mesmo após o esfriamento da turba inquisitória e da volta a quase uma tolerância religiosa, a bruxaria ainda era marginalizada e manchada de culpa. Aos poucos, sua imagem deturpada e enfraquecida deixou de representar uma ameaça e foi praticamente esquecida durante os séculos seguintes, marcados pela racionalidade do Iluminismo e do Empirismo. O mundo assistiu a Revolução Industrial e carregou-se de uma visão materialista e analítica. A era do capitalismo e dos filósofos ateus não deixou espaço para a bruxaria. No início do século XX, o interesse pela espiritualidade e pelos segredos do universo foram pouco a pouco reinstalando-se. A bruxaria, como outros temas religiosos esquecidos no passado, ergueu-se no interesse isolado de alguns pesquisadores. 

Foi assim que, depois de minuciosos exames nos registros de julgamentos deixados pela Inquisição, a antropóloga inglesa Margaret Murray, publicou em 1921 suas pesquisas desmistificando a conotação do mal que a igreja impôs sobre as antigas religiões pagãs. Margaret também trouxe à luz várias características da velha religião. Descobriu seus Deuses e sua tendência matriarcal sedimentada pelo culto à Diana. Ainda no começo do século, outros pesquisadores escreveram sobre o tema, como o folclorista americano Charles Leland, com sua obra "Aradia", e o poera ingkês Robert Graves, com sua respeitada obra "A Deusa Branca". Porém, foi em meados do século, principalmente com a revogação das leis anti bruxaria na Inglaterra, em 1951, que os primeiros livros escritos por bruxos praticantes foram publicados.

De todos esses bruxos, o que atingiu maior notoriedade foi Gerald Brosseau Gardner, antropólogo amador pouco afeito a convenções, que instaurou os novos estatutos da atual bruxaria. O discípulo mais contundente de Gardner, Raymond Buckland, foi para América decidido a propagar esse renascimento do ocultismo pagão. Nessa época, por volta de 1960, inúmeros covens e assembléias de bruxos surgiram. Sentindo-se livres para finalmente se expor, espalharam-se pela América e outras partes do mundo. Claro que desse crescimento surgiram inúmeras variantes da Wicca.

Na verdade, todas elas refletem sua natureza aberta e eclética, sem dogmas estatizados e em constante movimento. A Wicca é hoje o resultado de todos esses processos. Ainda que diversos grupos discordem quanto à prática de alguns símbolos e ritos, todos comungam da mesma fé na grande Deusa a natureza. Sua essência pura e materna conduz todos os seus filhos sempre para um objetivo comum: o equilíbrio do corpo e do espírito, da matéria e da magia; duas metades indivisíveis e unas, sempre através e em nome da Deusa, do seu amor incondicional e de seus laboratórios encantados que afloram na natureza.

20 de julho de 2015

A Inquisição

Movimento de perseguição às religiões nativas e pagãs, que culminou na terrível inquisição no ano 1231, teve seu início séculos antes com a reação do clero contra a ascensão da bruxaria e das ordens reformistas consideradas heréticas. Os reformistas eram formados na sua maioria por cristãos dissidentes da igreja oficial que indignaram-se com o poder político e a pompa imperial com que os líderes da igreja foram se cercando através dos séculos. Exigiam assim, a volta à piedade pura de Jesus e à simplicidade de seus ensinamentos. Entre eles, os que mais ameaçaram a igreja com seu ascetismo fervoroso foram, sem dúvida, os cátaros que espalharam sua doutrina por boa parte do continente durante os séculos XII e XIII.

Se a igreja estava, por um lado, cercada pelos reformistas radicais que conquistavam a simpatia do povo por sua simplicidade, estava por outro perdendo terreno para a bruxaria e seus dogmas panteístas que atraíam não só os camponeses, mas um número cada vez maior de estudiosos e nobres da aristocracia européia. 

Assim, decidida a erradicar de uma vez por todas todos os hereges que ameaçavam a igreja e seu poderio político, espiritual e financeiro, teve início a Inquisição, por um decreto outorgado pelo Papa Gregório IX. Nos cinco séculos seguintes, a Inquisição aniquilaria aos milhões todos os inimigos do cristianismo: bruxas, hereges e todos aqueles que, de alguma forma, não seguiam os ditames da igreja oficial eram assassinados, em sua grande maioria, queimados vivos. Estima-se que do século XII ao XVII mais de 10 milhões de pessoas tenham sido portas por essa sangrenta instituição.

É claro que a igreja necessitava ter, para todos os efeitos, argumentos cabíveis que explicassem tantas mortes e perseguições. Era preciso, antes de mais nada, atribuir alguma culpa às vítimas, transformando-as em vilões. Assim, a imagem da bruxaria foi totalmente denegrida, todos os seus ritos foram deturpados, seus Deuses foram transformados em demônios e sua filosofia associada ao mal e a loucura. É óbvio que as mulheres foram as grandes vítimas da Inquisição, não apenas pelo fato da igreja exercer, nessa época, um patriarcado machista e ortodoxo que reduzia as mulheres a um ser inferior e "sem alma", mas sobretudo pelo fato da bruxaria ter nascido a partir do culto de uma Deusa Mãe e ser, por essa razão, um reflexo religioso do eterno feminino.

Em 1486, o Papa Inocêncio VIII encomendou a dois monges dominicanos, Heinrich Kraemer e Jacob Sprenger, um verdadeiro tratado de caça às bruxas. Nesse "Manual do Inquisidor", deveriam ficar claros para uma fácil identificação todos os segredos, códigos e artimanhas usadas pelas bruxas em seus ritos e práticas. Foi assim que a famosa obra "Malleus Maleficarum", também conhecida como "O Martelo das Feiticeiras", que tornou-se a maior peça da publicidade contra a bruxaria, afirmava, entre outras calúnias, que eram adoradores do demônio e partidárias de sacrifícios hediondos em homenagem à ele.

É irônico concluir que foi a própria igreja que criou a figura do diabo e associou à figura do Deus Cernunnos, o Deus Cornífero dos celtas e da bruxaria. Foi por essa razão que o demônio "gerado" pela igreja traz ainda os mesmos chifres que desde as culturas neolíticas simbolizavam apenas o respeito pela caça e pelo caçador. Foi assim que, através de uma perseguição sem limites, que a bruxaria foi banida do panorama europeu e sumiu em sua clandestinidade durante os séculos seguintes.

14 de julho de 2015

História da Wicca - parte II

No Neolítico, o ser humano desenvolveu a agricultura e começou a formar aldeias e povoados. Com descobertas das técnicas de plantio, a Deusa assumiu maior importância, passando a acumular também o papel de guardiã da colheita. O Deus de Chifres começou a ganhar uma nova face, a de Deus das Florestas, protetor dos animais e criaturas dos bosques. Quando o homem adquiriu a noção das estações do ano, esboçaram-se as primeiras ideias da Roda do Ano.

Havia um período quente e fértil, onde realizavam-se as colheitas e a natureza mostrava todo seu esplendor. Neste período, reinava a Deusa. Depois as folhas caíam e tudo parecia estar morto. O povo voltava a depender da caça para sobreviver, pois não podia viver só dos alimentos armazenados. Quem regia esse período era o Deus das Caçadas, que também adquiria seu novo aspecto de Sombrio Senhor da Morte (nessa época nasceram também os primeiros conceitos da vida após a morte). Surgiram então os primeiros mitos sobre a descida da Deusa ao mundo subterrâneo que, séculos mais tarde, tomaria forma definitiva na Grécia, com mito de Perséfone, e na Mesopotâmia com a lenda de Ishtar. 

As culturas desenvolveram-se com o passar dos séculos e novos aspectos dos Deuses foram descobertos. Cultos religiosos se estruturam, centrados nos ciclos e nascimento, morte e renascimento da natureza. O tempo da plantação e o tempo da colheita eram muito importantes, marcadas com festividades, assim como o período de recolhimento do gado e a época de sua liberação ao pasto. Nessas datas, juntamente com as de mudanças de estações, realizavam-se encenações de mitos nos quais um Deus velho morria para um Deus jovem nascer, representando a morte da antiga colheita e o nascimento de uma nova.

Estes cultos possibilitaram o refinamento da classe sacerdotal, que chegou ao requinte de formar representantes como os druidas. sacerdotes celtas que encantaram os gregos e os romanos com sua profunda filosofia e integração com a natureza. Sua erudição era admirável e acumulavam funções como legisladores, médicos, poetas, bardos e guardiões da tradição oral. Na Grécia Antiga, floresceram os Cultos de Mistério, dos quais deve-se destacar os Ritos de Elêusis e os Mistérios Órficos. Também foram de grande importância os cultos dionisíacos. Deve-se ter em mente que estas são linhas gerais do início da bruxaria, que confunde-se com o surgimento das primeiras manifestações religiosas humanas.

O que foi relatado acima aconteceu em épocas diferentes, nos mais variados lugares. É verdade que nem tudo aconteceu da mesma maneira em todos os lugares: enquanto no Crescente Fértil da Mesopotâmia nasciam avançadas civilizações, na Europa ainda vivia-se de caça e coleta. Mas o que impressiona e é importante não são as diferenças, mas sim as semelhanças dos primeiros esboços de religião.

A Cristianização dos povos celtas não impediu, como já vimos, nem a prática dos ritos pagãos, nem o crescimento de seus adeptos. Embora existissem casos isolados de perseguição fanática e intransigência religiosa por parre dos mais estoicos, o Cristianismo de certa forma tolerou a bruxaria e ambos coexistiam dentro de um mesmo ambiente em visível ebulição durante 10 séculos seguidos. 

No auge da Idade Média a magia também atingia seu apogeu. Suas características investigativas atraiam os que queriam algo mais que apenas uma doutrina imposta e imutável do cristianismo. Suas práticas mágicas que resultavam em curas fantásticas e nítidos poderes, seduziam mais os inquietos e seus Deuses benevolentes, reflexos de um mundo natural, contrastavam enormemente com o austero Deus único do cristianismo. 

A bruxaria crescia, ganhava adeptos, sua essência feminina e maternal abraçava os camponeses sofridos e massacrados pelos senhores feudais, seus ritos da natureza e a visível união do mundo marial com o mundo mágico, símbolos de uma vida equilibrada, fortaleciam os alicerces de sua espiritualidade. Pouco a pouco, porém, esses mesmos méritos que legitimaram a bruxaria e contribuíram para seu crescimento transformaram-se em forte artilharia contra a Igreja, que tornava-se cada vez ais temerosa pela perda de adeptos e pela incapacidade de explicar os mistérios do homem e da natureza da mesma maneira que a bruxaria podia e fazia com tantos resultados prodigiosos.

13 de julho de 2015

História da Wicca - parte I

Wicca é uma palavra do inglês arcaico que quer dizer "bruxo". Há quem diga que seu significado é "sábio", mas isso não corresponde com a verdade. A palavra tem sua origem na raiz indo-européia "wikk", significando "magia", "feitiçaria". O nome Wicca é mais usado para denominar essa religião. Ela também é conhecida como Bruxaria, Feitiçaria, Antiga Religião, Arte dos Sábios ou simplesmente Arte.

As origens da Bruxaria remontam à aurora da humanidade. As crenças começaram a tomar forma no Paleolítico, há aproximadamente 25 mil anos. Neste período, o ser humano era nômade e suas principais fontes de subsistência eram a caça e a coleta. Tudo era misterioso para o homem e a mulher do paleolítico: o trovão, o sol, a escuridão. Para eles, o mundo era um lugar perigoso, cheio de forças que deveriam ser temidas, respeitadas e reverenciadas. Com o tempo, a ideia das forças foi evoluindo para a ideia de Deuses.

Um dos primeiros e, seguramente, o mais importante Deus primitivo a surgir foi o Deus de Chifres. Para que o clã nômade sobrevivesse, uma das principais atividades era a caça: dela provinham carne para alimentar-se, pele para vestir-se, ossos e chifres para fazer instrumentos. Assim, tomou forma na mente do ser humano primitivo a ideia de um Deus das Caçadas, dotado de chifres, símbolo do poder. Alguns membros do clã iniciaram a prática de atividades de caráter mágico-religioso, composto por um elemento religioso (esboços de rituais e mitos dedicado à adoração do Deus de Chifres, forças naturais e espíritos dos antepassados) e por um elemento mágico (práticas que tentavam atrair a benevolência dessas divindades e espíritos, a fim de manipulá-los para interesses práticos do clã).

Neste momento estava se delineando algo que se assemelhava muito a grosso modo com uma classe sacerdotal. Esses "sacerdotes" realizavam ritos que hoje são chamados de magia simpática, ou seja, práticas baseadas na atração dos semelhantes. Pintavam-se cenas de membros dos clãs vencendo e abatendo animais cobiçados, para garantir o sucesso da próxima caçada. Miniaturas desses mesmos animais eram confeccionados em ossos, chifres ou barro, então simulava-se sua caça e abate. Esses ritos eram geralmente dirigidos por um desses "sacerdotes", geralmente usando a primeira de todas as túnicas: peles de animais e uma máscara dotada de chifres.

Em Tróis Frères, na França, existe uma pintura de 12 mil anos, conhecida como "Le Sorcière" (O Feiticeiro). É a figura de um homem vestindo peles, com cauda e chifres de cervos. A sua volta, paredes cobertas por pinturas de animais em caçadas. Mas as caçadas não eram a única coisa que fazia o clã sobreviver. Havia um mistério: o da fertilidade. O clã precisava continuar. De tempos em tempos, a barriga da mulher crescia e ao fim de algumas luas, dela surgia um novo membro da tribo, pequeno, mas que crescia com o passar do tempo. Os animais também tinham filhotes e isso garantia o alimento de futuras gerações. A chave de todo esse mistério era a mulher, aquele enigmático ser que, se já não bastasse ser a única responsável pela continuação da tribo (ainda não havia a consciência da participação do homem na procriação), também alimentava as crianças com leite do seu próprio corpo. Além disso, aquela criatura mágica vertia sangue de seu próprio corpo em algumas ocasiões, mas mesmo assim não morria.

Todas essas constatações deram origem ao surgimento de uma Deusa da Fertilidade, uma grande mãe. Figuras pré históricas desta Deusa são incontáveis. Uma das mais famosas é a Vênus de Willendorf: seu corpo parece uma grande massa disforme do qual se destacam um gigantesco par de seios e uma proeminente barriga grávida. Ela não tem pés, nem braços e seu rosto está coberto. Essas características são comuns em várias outras "Vênus" pré históricas e se devem à ênfase que o ser humano primitivo dava ao aspecto da fertilidade da mulher.

A Deusa era a grande Mãe Natureza, fonte de toda vida. Com o tempo, os homens foram se conscientizando de seu papel na reprodução e o aspecto de fertilizador passou a ser mais um atributo do Deus de Chifres. Ele tornou-se filho da Deusa, pois dela era nascido e também seu amante, pois a fertilizava para que um novo ser surgisse. A partir dessa concepção, novos ritos foram adicionados às práticas mágico-religiosas, onde esculpiam-se ou pintavam-se animais ou humanos copulando e todo clã entregava-se ao ato sexual, já tendo recebido a graça dos Deuses.

12 de julho de 2015

Introdução - Sobre a Wicca

A Wicca é uma religião em que não existem livros sagrados, nem profetas à justificá-los, hierarquia ou dogmas. Não faz apelo a uma fé única e exclusiva, não tem mandamentos. Promove, acima de tudo, o respeito e a diversidade. Não é também um sincretismo religioso porque vários sincretismos são possíveis. É uma escolha pessoal para aqueles que sentem que sua percepção do sagrado não só não se enquadra nos esquemas tradicionais, como é algo demasiado individual para se sujeitar a conjuntos de regras e crenças que outros determinam.

As poucas regras existentes na Wicca têm um caráter essencialmente funcional e são vistas não como mandamentos de qualquer divindade ou profeta iluminado, mas como simples normas de relacionamento entre pessoas que partilham interesses comuns. São apenas alguns princípios genéricos ligados à valores ecológicos e individuais de largo consenso e à liberdade de expressão da religiosidade como é sentida e recriada por cada um. O seu espírito está bem patente na regra básica "faça o que quiseres, desde que não faças mal", a única regra que todos os membros da Wicca procuram seguir.

A Wicca tem a sua maior implantação nos países anglo saxônicos, onde a longa tradição democrática e o protestantismo permitem um maior individualismo - chamando a esses praticantes de Bruxos Solitários. Além das práticas individuais, os Wiccanos se agrupam em pequenos núcleos, tradicionalmente de 13 pessoas - ao qual chamamos Coven. Cada Coven possui suas regras e tradições e ainda podem se juntar em grandes encontros. Nestes encontros estendem-se ao campo religioso os princípios de liberdade de expressão e de associação, já há muito aplicados em outros setores da sociedade. Ao contrário de outras religiões e organizações, não existe aqui uma estrutura hierárquica fixa, tampouco uma autoridade central.